Recomendações para se proteger do vírus, como lavar as mãos, evitar aglomerações e ficar em casa, são difíceis no dia a dia das favelas, onde 13,6 milhões de brasileiros vivem atualmente. Confira as principais dificuldades e soluções no combate da covid-19 nessas comunidades

Problemas
– O dinheiro das famílias não é suficiente para comprar itens de limpeza, como álcool em gel, e máscaras.
– Cortes de água dificultam lavar mãos e roupas com frequência.
– A necessidade de sair para trabalhar, para manter a renda, aumenta o risco de contaminação.
– Muitos vivem em casas com poucos cômodos, o que dificulta o isolamento de doentes.
– Casas com pouca ventilação facilitam a disseminação do vírus.
– Há poucos hospitais públicos na região para atender a população.

Família recebe doação de alimentos da Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência, em comunidade no Rio de Janeiro / #pracegover: família, composta por dois adultos, duas crianças e um cão, recebe doação de alimentos em comunidade no Rio de Janeiro. Foto: Bruna Prado/Getty Images

Soluções
– Pagamento em dinheiro para que as pessoas possam parar de trabalhar e ficar em casa.
– Suspensão de pagamentos de contas como luz e aluguel.
– Distribuição de água, alimentos e itens de limpeza.
– Melhorias na estrutura das casas.
– Fiscalização para impedir eventos e locais que atraiam grande número de pessoas.
– Aumento da quantidade de hospitais e profissionais da saúde nessas regiões.
– Implantar o saneamento básico, dando acesso à rede de água potável e à coleta de esgoto.

Médicos e enfermeiros atendem a população da comunidade de Paraisópolis,
na capital paulista. / #pracegover: profissionais de saúde, usando máscaras, caminham por rua em Paraisópolis. Foto: Alexandre Schneider/Getty Images

O que o poder público está fazendo?
Confira algumas das iniciativas do governo federal e dos estados

– Auxílio emergencial: o governo federal dará 600 reais por mês a trabalhadores informais (sem carteira de trabalho assinada) e desempregados durante três meses.
– A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) suspendeu por 90 dias os cortes de energia por falta de pagamento de contas de luz.
– O Ministério da Saúde afirma que o sistema TeleSUS garantirá consultas on-line e acompanhamento diário para os moradores que precisarem se isolar por causa do vírus.
– No estado de São Paulo, a cobrança da conta de água foi suspensa para 506 mil famílias carentes.
– O governo de Pernambuco anunciou a distribuição de cartões alimentação no valor de 50 reais para 240 mil estudantes da rede pública estadual.
– A prefeitura do Rio de Janeiro afirma que abriu mil vagas em hotéis para idosos de comunidades que moram em casas com muitas pessoas — com alimentação e suporte de especialistas da saúde 24 horas por dia.
– O Ministério da Educação vai oferecer kits de alimentos às famílias dos alunos da educação básica de todo o país enquanto as aulas presenciais continuarem suspensas. O dinheiro virá do que era gasto com a merenda escolar

Em sessão virtual, os senadores analisam projetos de enfrentamento à crise econômica provocada pelo novo coronavírus. / #pracegover: em uma sala cheia de telas, senadores analisam, virtualmente, projetos. Foto: Alexandre Schneider, Bruna Prado_Getty Images

O que os moradores estão fazendo?
Veja exemplos de ações de auxílio e combate ao vírus

Associações de moradores têm campanhas na internet para arrecadar dinheiro e ajudar no combate à covid-19 nas comunidades. A União de Moradores e Comerciantes de Paraisópolis, de São Paulo — onde moram 100 mil pessoas —, por exemplo, contratou três ambulâncias e uma equipe de sete profissionais da saúde que ficarão disponíveis na comunidade 24 horas por dia durante três meses. Além disso, 420 moradores voluntários acompanham de perto 50 casas, verificando se há pessoas com sintomas ou pouco dinheiro para comprar comida. Para a alimentação, um grupo de 15 mulheres faz e distribui 2 mil marmitas por dia entre os moradores. A comunidade ainda pretende transformar duas escolas em hospitais temporários para atender 500 doentes.

Consultoria: Centro de Estudos Periféricos e Gilson Rodrigues, presidente da União de Moradores e Comerciantes de Paraisópolis, comunidade da cidade de São Paulo.

Dados

De dez famílias brasileiras que moram na periferia, sete estão vivendo com menos dinheiro por causa da crise do novo coronavírus.

O número de casas sem infraestrutura adequada no Brasil ultrapassa os 11 milhões.

Nas periferias, 31 milhões de pessoas não têm acesso a uma rede geral de distribuição de água.

76% dizem que, com os filhos em casa sem ir para a escola, os gastos já aumentaram.

86% das famílias de periferias afirmam que não conseguiriam
comprar alimentos se ficassem um mês em casa sem trabalhar. 32%
preveem que será complicado comprar alimentos em menos tempo de
quarentena: uma semana.

Os riscos à saúde trazidos pelo vírus são uma grande preocupação para a maioria (66%) dessa população, mas uma parcela ainda maior (75%) se preocupa com o dinheiro que deixará de ganhar. Sem trabalhar porque lojas e restaurantes, por exemplo, estão fechados, há o temor de não conseguir comprar itens básico, como alimentos.

Fontes: Pesquisa do Instituto Locomotiva e do Data Favela, Tese de Impacto Social em Habitação, da Artemisia.

No Morro Santa Marta, em Botafogo, no Rio de Janeiro, voluntários trabalham na limpeza de áreas da comunidade com o objetivo de prevenir a proliferação do novo coronavírus. / #pracegover: profissional de limpeza, com roupa especial, limpa área de comunidade no Rio de Janeiro. Foto: Fabio Teixeira/NurPhoto via Getty Images

No estado do Rio de Janeiro, 13% da população vive em favelas e, em São Paulo, 7%. Os dois estados são os que concentram os maiores números de infectados pelo novo coronavírus no Brasil. Confira o depoimento de jovens moradores das comunidades sobre como a pandemia mudou a rotina deles.

“Quando o vírus chegou a Paraisópolis, minha família ficou bem assustada. Meus pais não tiveram a opção de ficar em casa: eles precisam sair para trabalhar. Quando chegam, vão direto ao banho. Meu pai já fez o cadastro para conseguir o auxílio emergencial e está esperando a resposta. Minha mãe ainda precisa se registrar. Eu tive que me isolar por conta da minha bronquite [doença respiratória], já que isso faz com que eu esteja no grupo de risco mesmo sendo criança. Fico em casa cuidando das minhas irmãs. Minha tia ficou sem trabalho depois que o coronavírus chegou e recebeu kit de higiene da associação dos moradores, assim como outros moradores que estão sem dinheiro.

Aqui fica quase o dia todo sem água, que pode voltar a qualquer hora, mas por bem pouco tempo! Como a gente está em casa, deixa todas as torneiras abertas e, quando escuta que caiu um pouco de água, a gente enche garrafas e baldes para garantir que à noite tenha algo.

O movimento nas ruas diminuiu bastante, mas ainda tem bares e padarias abertas e, na maioria, tem álcool em gel para quem vai. Os restaurantes que fecharam estão fazendo delivery e os entregadores trabalham de máscara. Espero que as pessoas se conscientizem mais e não saiam na rua e que essa doença acabe logo e não mate muita gente.

Desde o começo da pandemia, acompanho as notícias no site da Organização Mundial da Saúde para me manter informado e informar meus amigos. Eu gravo vídeos curtos sobre cuidados com a doença e mando para as pessoas.” Kayo Henrique G., 13 anos, mora em Paraisópolis, comunidade de São Paulo

#pracegover: Kayo está em uma sala cheia de espelhos. Ele usa calça jeans e camiseta de manga comprida, nas cores vermelho, branco e cinza. Foto: arquivo pessoal.

“Eu e minha família estamos ficando em casa, lavando as mãos e usando o álcool em gel. Minha mãe está de férias, então pode ficar sem trabalhar. Nosso dia a dia mudou muito aqui: ficamos mais juntos, brincamos mais, conversamos e estudamos on-line. Eu me sinto muito triste pela morte das pessoas com essa doença. Na rua tem pouco movimento: só de quem precisa sair para comprar algo e algumas lojas que ficam abertas porque as pessoas precisam trabalhar. Mas não tem nada de festa nem futebol. Sinto muita falta de sair com meus amigos, de ir para o parque brincar, para a escola e a igreja. Eu espero que no futuro as pessoas melhorem seu jeito de viver e se importem mais umas com as outras.” Julia Cristina M., 10 anos, mora no Complexo do Alemão, comunidade do Rio de Janeiro

#pracegover: Julia usa camiseta rosa e shorts amarelo. Ela tem pinturas em preto nos braços e no rosto. Foto: arquivo pessoal.

Veja mais depoimentos no site do Joca: jornaljoca.com.br.

Fontes gerais da reportagem: Agência Brasil, Agência Mural, BBC, Catraca Livre, Corona nas Periferias, Cufa, Diário de Canoas, Folha de S.Paulo, G1, Mundo Negro, Nexo, Periferia em Movimento, Pública – Agência de Jornalismo Investigativo, O Povo, Outras Mídias, Redes da Maré, The Guardian, The New York Times, UNA-SUS, Unas Heliópolis, União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis e Voz das Comunidades.

Esta matéria foi originalmente publicada na edição 147 do jornal Joca.

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Comentários (1)

  • Matérias do Joca sobre o novo coronavírus - Jornal Joca

    1 ano atrás

    […] As periferias e o novo coronavírus […]

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