Chinaider Pinheiro cresceu na favela de Vigário Geral (RJ) e foi chefe do tráfico de drogas do Comando Vermelho. Depois de dez anos na prisão, virou o jogo e se tornou uma referência para os jovens. Hoje, aos 40 anos, estuda direito e coordena o Projeto Segunda Chance, que arruma empregos e oportunidades para ex-presidiários e pessoas que procuram uma vida melhor.

Como foi sua infância?
Humilde. Morei numa comunidade carente, na favela de Vigário Geral, zona norte do Rio de Janeiro. 

Vista aérea da Favela de Vigário Geral, Rio de Janeiro

Você tem irmãos, pai e mãe, filhos?
Tenho pai, mãe, uma irmã viva, um irmão morto e seis filhos, de 20, 13, 11, 7, 7 e 6 anos.

O que fez você entrar no mundo do crime?
Fui resgatar meu irmão caçula, mas a tentativa foi em vão, ele morreu três meses depois. Continuei no mundo do crime por ambição, queria ganhar dinheiro.

Suspeitos de crimes são presos em Vigário Geral

E você ganhava muito dinheiro com isso?
Sim, bem mais do que R$ 30 mil por mês.

Por que foi preso, o que você fazia?
Era traficante.

E quais foram as acusações?
Art. 159 do Código Penal (sequestrar pessoa com o fim de obter, para si ou para outrem, qualquer vantagem, como condição ou preço do resgate). Fui acusado de sequestro…

Como foi o momento da prisão?
Fui preso no cativeiro, estava com a vítima.

Quantos anos você tinha e quanto tempo ficou preso?
Tinha 22 anos. Fiquei na cadeia durante quase dez anos.

Quando estava preso, seus filhos já eram nascidos?
Sim, já tinha dois filhos.

Eles sabiam o que você fazia?
Sim…

O que passou por sua cabeça quando estava preso?
Sabia que um dia isso podia acontecer, mas fiquei surpreso. Achei que nunca mais iria sair da cadeia.

Como era a vida na prisão?
Total ociosidade, não podia fazer nada a não ser aprender cada vez mais como era ser um criminoso.

Policial revista crianças em Vigário Geral

O que você diria para uma pessoa que consome drogas?
Que a geração dele vai morrer com ele, pois antes que ele pense em construir uma família, morrerá.

Você já voltou para o lugar onde morava antes de ser preso?
Sim, apenas a trabalho.

Seus antigos amigos ainda o procuram, pedem para voltar ao mundo do crime?
Hoje não mais. Mudei de cidade e não falo com eles por causa da distância. Além disso, eles se convenceram de que realmente mudei.

Em algum momento você pensou em voltar ao mundo do crime?
Sinceramente, em um momento que estava numa grande dificuldade, e não estava maduro ainda, passou, sim, pela minha cabeça. Mas rapidamente me dei conta de que seria uma loucura. Então, escolhi viver com dignidade e trabalhando.

O que aprendeu de mais importante em tudo o que viveu?
Que o mundo do crime é uma ilusão. Você pensa que tem tudo, que é todo-poderoso, mas, na verdade, não é nada disso. Você é apenas o instrumento de uma grande armadilha para perder sua vida e tirar a dos outros.

Você acha que “pagou” por seus atos?
Foram dez anos e quatro meses dentro do sistema prisional. Acho que paguei, sim.

Após sair da prisão, por que decidiu entrar no AfroReggae e qual seu trabalho?
Fui convidado e, hoje, compartilho com todo mundo a oportunidade que recebi nesse programa, que se chama Segunda Chance. Arrumo oportunidades de emprego para as pessoas em empresas parceiras do AfroReggae.

Como é o seu dia a dia?
Muito bom e normal, como o de qualquer outro chefe de família que trabalha.

Você já aconselhou outros amigos a sair do crime?
Muitos e, em alguns casos, deu certo.

Você acha é um bom exemplo para jovens que estão no mundo do crime?
Sem dúvida. Faço com que pensem além. Quando veem que estou quase me formando como advogado, tenho certeza de que os faço sonhar com uma vida bem melhor em sociedade.

O que gosta de fazer quando não está trabalhando?
Ver televisão com meus filhos e cozinhar. Gosto muito de cinema e de passear com minha família.

Qual seu maior sonho?
Existem os coerentes e os incoerentes. (risos) Coerente seria ver um mundo mais justo, respeitando o direito de ir e vir de cada ser humano. Incoerente seria a vontade de ganhar na loteria para reunir todos os meus filhos numa única harmonia.

Você é religioso?
Sim, sou filho de cristãos e creio em Jesus Cristo.

Como você avalia o futuro do Brasil?
Vivo a nossa realidade. Acho que a corrupção nunca vai acabar e que sempre teremos dificuldades para sobreviver neste país. O ser humano é cruel e só enxerga o próprio umbigo. Não podemos perder a fé em Jesus, que acredito que um dia voltará, aí sim, viveremos na mais absoluta felicidade. Até lá, não podemos desistir nunca de tentar ser feliz na vida!

Se pudesse dar um conselho aos nossos leitores, qual seria?
Que nossa felicidade depende apenas de nós mesmos. A vida não é fácil, e tenho certeza de que nunca foi para nossos antecedentes. Estudem, e estudem muito. Sejam senhores de seu destino. Amem o próximo, e nunca odeiem, pois esse sentimento negativo só nos destrói. E jamais desistam de ser feliz, pois isso é possível. Nunca imaginei que ia concluir o ensino médio e muito menos que estaria quase formado em uma faculdade. Achei que nunca mais seria feliz depois de ter passado mais de dez anos numa prisão. “Seja a mudança que você quer ver no mundo”, como disse o Dalai Lama.

Qual a importância da leitura e como ela pode ser transformadora?
Ler é estar sempre fortalecido de conhecimento. Quem detém o conhecimento, tudo possui.



Chinaider (esq, de óculos) e a equipe do Projeto Segunda Chance

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