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Sala de aula da Escola Municipal Victor Civita, localizada na comunidade Abelha, a uma distância de um dia de barco de Novo Aripuanã, no interior do estado do Amazonas. Foto: Martina Medina

Lápis e caderno não são os únicos materiais escolares de Silane P., 17 anos. Com uma mala, um balde cheio de farinha e uma muda de abacateiro, ela espera pelo transporte escolar à beira do rio Mariepauá. É sábado, dia de ir para a escola — ou melhor, noite, já que a embarcação Encontro das Águas para às 20h em frente à casa da estudante na comunidade ribeirinha de Santo Antônio, no Amazonas.

Dezenas de alunos e professores já estão a bordo e outros ainda vão embarcar ao longo do curso do rio, rumo à Escola Municipal Victor Civita, localizada na comunidade Abelha, a uma distância de um dia de barco de Novo Aripuanã, no interior do estado do Amazonas. A solução para a distância entre as 14 comunidades ribeirinhas e a escola, que começou a funcionar em 2011, é o ensino integral por alternância. Isso significa que alunos e professores passam 15 dias na escola e 15 dias em casa entre os meses de janeiro e agosto — exceto neste momento, por causa do novo coronavírus, que levou à suspensão de aulas no Amazonas.

Nesse período, o rio está cheio, permitindo que barcos grandes naveguem por ele. Assim, a embarcação pode levar até a escola os 82 alunos do 6o ao 9o ano do ensino fundamental e seis professores, além do gestor e alguns familiares. Na seca, apenas canoas conseguem percorrer o trajeto, impedindo que tanta gente possa chegar à escola em um só barco.

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Foto: Martina Medina.

Problemas
As águas do Mariepauá são escuras, o rio é estreito e tem muitas curvas. Para evitar acidentes, o barco para durante a noite, quando todos a bordo dormem em redes. Apesar dos cuidados, o transporte enfrenta dificuldades. Quando o Joca acompanhou a viagem, entre 8 e 9 de fevereiro, a parte inferior da embarcação amanheceu alagada e estava afundando. Alunos, professores e funcionários do transporte conseguiram retirar a água a tempo e o barco seguiu viagem.

Alguns pais e alunos reclamam da falta de manutenção do barco. Segundo o piloto e dono do barco, Otávio Correa, uma peça para vedar a água estava frouxa, o que motivou o problema. “É a primeira vez que isso acontece. O barco está todo reformado”, disse ele. Outro problema é que a embarcação é pequena para a quantidade de alunos. Além disso, ela carrega apenas 30 coletes salva-vidas. O proprietário diz que está trabalhando para abrir mais espaço para as redes usadas para dormir, construir outro banheiro e adquirir equipamentos de segurança ainda este ano. A Secretaria Municipal de Educação de Novo Aripuanã afirma que vai fiscalizar a reforma.

O barco também “dá carona” para moradores das comunidades ao redor do Mariepauá, que vão de canoa para a cidade adquirir mantimentos e não têm dinheiro o suficiente para comprar combustível e voltar sozinhos. A atitude já foi proibida pela Secretaria de Educação porque aumenta o tempo de viagem e o consumo de combustível do barco. “Eles vão na rabeta [parte de trás do barco], nas voadeiras [pequenas lanchas] deles, não ocupam espaço dos alunos e até dão comida para gente. A gente tem que ajudar porque não sabe o dia de amanhã”, defende o piloto Otávio. Segundo o gestor da escola, José Ruy Lemos, faltam investimentos de empresas e da prefeitura para que a escola e o transporte funcionem melhor.

A escola foi criada em uma parceria entre a prefeitura de Novo Aripuanã, a Fundação Amazonas Sustentável e a Editora Abril, mas parou de receber dinheiro da editora há seis anos. A Secretaria de Educação afirma que vai voltar a negociar com o dono do barco para que a regra seja cumprida corretamente. Sobre a possibilidade de existir outro barco que faça o trajeto e de aumentar os investimentos na escola, o órgão afirmou que a prefeitura discutirá o tema, mas que talvez não haja dinheiro suficiente para isso.

Transporte escolar na região amazônica
A região hidrográfica da Amazônia no Brasil, formada por rios e seus afluentes nos estados do Acre, Amazonas, Roraima, Rondônia, Mato Grosso, Pará e Amapá, ocupa uma área de 4 milhões de quilômetros quadrados – o que corresponde à quase metade (45%) do território de todo o país. Por isso, grande parte do transporte na região é feito pela água. Confira alguns dos desafios e soluções para estudantes que vivem na beira dos rios e dependem desse tipo de transporte para ter aulas.

Desafios
• Transporte fluvial é mais lento e mais caro do que terrestre.
• Comunidades com número pequeno de pessoas e distantes entre si. É inviável que cada comunidade tenha uma escola.
• Dinâmica dos rios: o trajeto pode ser feito por grandes barcos quando o rio está cheio, na época em que chove muito (de janeiro a agosto). O mesmo caminho só pode ser percorrido por embarcações pequenas nas épocas de pouca chuva (de setembro a dezembro).
• Pouca quantidade, baixa qualidade e segurança ruim do transporte aquaviário oferecido.

Soluções
• Mais fiscalização por parte do poder público das empresas que realizam o transporte escolar para garantir que o serviço aconteça normalmente.
• Oficinas mecânicas com peças reserva de barcos próximas ao trajeto feito pelas embarcações nas comunidades para evitar que o transporte fique parado. E barcos reserva.
• Barcos de serviços públicos que vão a comunidades de difícil acesso deveriam levar agentes da educação para acompanhar se as crianças estão indo à escola.
• Ampliar o número de escolas por alternância.

Fontes: Jarliane Ferreira, professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e coordenadora do Programa de Observatório da Educação do Campo no Alto Solimões (Obecas); Matheus Rangel, oficial de educação do Unicef em Manaus; e Censo Escolar 2015.

Dados

Mais de 6,7 milhões de brasileiros estudam em escolas rurais.

Quase 70% deles (4,8 milhões) necessitam do transporte escolar para ter aula.

27,7% dos veículos são inadequados ao transporte escolar.

Na Região Norte, 100 mil crianças de 7 a 14 anos estão fora da escola devido à falta de transporte.

No Brasil, a cada mil alunos, cinco não tiveram que abandonar a escola porque a frota de ônibus aumentou de 2007 e 2014.

Fontes: Inep (2008), FNDE e UNB (2009/2010), FNDE (2019).

Farinha de mandioca
No Amazonas, crianças e adultos colocam farinha em quase tudo: arroz e feijão, sopa, açaí e até água. Todas as comunidades têm plantação de mandioca, e as crianças ajudam da colheita até a confecção da farinha.

Como é estudar na floresta?
Conheça o dia a dia dos alunos da E. M. Victor Civita

• O barco deixa Novo Aripuanã às 10h do sábado e chega às 15h de domingo à escola.
• Crianças e jovens colocam suas redes nos quatro dormitórios, divididos entre feminino e masculino.
• A aula começa segunda-feira às 6h e termina às 16h. Nos intervalos, são servidos café da manhã, merenda e almoço.
• As quatro salas de aula têm vista para o rio. Além de disciplinas como português e matemática, há atividades como teatro, contação de história e plantio de árvores frutíferas — já são 1.200 e, a cada alternância, os alunos devem levar ao menos uma muda para aumentar esse número.
• Os estudantes são responsáveis pela organização e limpeza dos quartos, além de lavar a própria roupa.
• No fim de tarde, o passatempo preferido é futebol, seguido de banho de rio.
• Durante o dia, a única energia usada é a do sol. Quando escurece, um gerador à base de combustível é ligado.
• A internet só é utilizada para mandar mensagens importantes quando o diretor libera a senha. Às 22h, o gerador é desligado e todos devem estar nas redes para dormir.
• Nos 15 dias em que ficam em casa, os alunos fazem tarefas a serem corrigidas na próxima temporada na escola.

Depoimentos

“No começo, eu sentia falta dos meus irmãos, mas os colegas que fiz aqui me fizeram esquecer um pouco essa tristeza. Só não gosto que o barco é pequeno: temos que dormir dois ou três em uma rede.” Taiza O., 13 anos, mora na cidade de Novo Aripuanã

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Taiza O. Foto: Martina Medina

“Tem que acordar muito cedo para ter aula. O banheiro dos alojamentos também é muito sujo, isso podia melhorar. Eu prefiro a cidade, porque é mais confortável e a gente só estuda de manhã.” Nayson C., 14 anos, mora na comunidade Nova Esperança

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Nayson C. Foto: Martina Medina

“Gosto muito de ciências e gostei mais ainda que, este ano, começamos a estudar educação ambiental. É legal porque fala das coisas daqui. Gosto demais da escola: é dia e noite estudando, ocupando o tempo, aprendendo.” Silane P., 17 anos, mora na comunidade Santo Antônio

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Silane P. Foto: Martina Medina

“Quando eu estudava na cidade, não tinha essas atividades legais, como o ‘amigo do planeta’, um programa em que a gente sai recolhendo lixo rio abaixo e rio acima e conscientizando as pessoas. Mas, às vezes, cansa estudar o dia todo e ficar longe da família.” Maria Eduarda S., 12 anos, mora na comunidade Nova Jerusalém

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Maria Eduarda S. Foto: Martina Medina

“Eu moro aqui na comunidade mesmo. Não gosto quando os alunos vão embora, porque fica muito calado. Na escola falam muito sobre a natureza e o que está acontecendo, como desmatamento e incêndios na floresta. Aprendemos a manter nosso ambiente limpo e sustentável.” Joel R., 16 anos, mora na comunidade Abelha

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Joel R. Foto: Martina Medina

Essa reportagem foi produzida por meio de bolsa concedida pelo edital de Jornalismo de Educação 2019, com apoio da Jeduca e da Fundação Itaú Social.

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Comentários (1)

  • pyetro

    1 dia atrás

    eu gostei muito

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