Por Carol S., 10 anos

O ambientalista, Luciano Legaspe, 56 anos, aprendeu com os pais que o lixo tinha mais valor do que as pessoas pareciam dar a ele. Na década de 1960, quando o termo “reciclagem” ainda não era popular, o então curioso menino vivia reutilizando coisas.

O desafio de viver em harmonia com a natureza levou Luciano a cursar geografia na Universidade de São Paulo (USP), estudar fora do país e colocar em prática lições de sustentabilidade. Em 1998, ele construiu uma casa onde o lixo não existe. Localizada no município de Cotia, em São Paulo, a  residência passou a se chamar Escola de Reciclagem e, atualmente, recebe crianças, jovens e adultos.

#pracegover: Luciano veste camiseta vermelha e mascara de proteção preta. Ele usa algumas ferramentas em um estúdio. Crédito: Koji Hirano_GettyImages

Em visita ao local, Carol S., 10 anos, aluna da escola Avenues de São Paulo (SP), entrevistou Luciano como repórter mirim do Joca. “Foi incrível ter a oportunidade de conhecer melhor esse homem inspirador. A casa dele realmente é impressionante. Saí dela com muitas ideias de como ter uma vida mais sustentável”, comentou. Confira a entrevista a seguir.

Quando você começou a se interessar pela questão do meio ambiente?
Eu nasci em uma casa com poder aquisitivo muito baixo. Na minha família, usar lixo era comum, não era depreciativo. Meus pais, muito trabalhadores, diziam que era possível reutilizar coisas que muitas pessoas jogavam fora. Minha mãe guardava jornais e garrafas para trocar na feira por banana.

Nessa época — década de 1960 — ainda nem existia a palavra “reciclagem”. Por fazer isso, eu sofria o que hoje é chamado de bullying (tirar sarro porque alguém faz coisas a que os outros não estão acostumados), mas nunca liguei muito. As outras pessoas não compreendiam que, por exemplo, se estou jogando óleo usado fora e preciso comprar sabão, por que não usar o óleo para fazer sabão e guardar o dinheiro para viajar?

Eu gosto de mostrar que é fácil viver assim. Eu uso lixo como matéria-prima. Para filtrar uma pequena quantidade de água, por exemplo, uso um saquinho de coar café.

Em casa é igual: morre uma camiseta, nasce um pano de chão.
Que legal! Aqui também!

Foi difícil mudar seu estilo de vida?
Eu imagino que não, porque desde pequeno você foi criado assim… Para mim seria difícil ser o contrário. Quando morava em São Paulo, em um apartamento, eu me via doente. Guardava a matéria orgânica em baldes para fazer, na casa de outra pessoa, compostagem [transformação de restos de alimento em adubo, o que permite acelerar o crescimento das plantas de forma natural]. Não conseguia colocar em um saco e simplesmente jogar fora. Assim que tive condições, comprei essa casa e pude criar toda essa produção. Eu me senti feliz como ser humano porque agora não gero mais lixo de nada. Até o papel higiênico aqui em casa vira combustível — uso para acender o fogão a lenha.

 

#pracegover: a imagem mostra a parte de dentro do espaço Escola de Reciclagem. É possível ver uma bancada de madeira e uma janela. Crédito: arquivo pessoal.

Você pode descrever a sua casa para os leitores do Joca?
Ela é muito simples — a construção é como a de qualquer casa. Mas muita coisa por aqui era lixo e virou arte. Por exemplo: peguei madeira que seria jogada fora, fiz buracos nela e coloquei pedras. Virou uma porta bonita e diferente. A água que eu uso o ano todo é da chuva — quando chove muito, eu armazeno. Funciona assim: a água da chuva escorre pela calha, passa pela corrente, que é um condutor para a água, e cai em um balde cheio de pedras, que a filtram. Por último, a água passa pelo cano até chegar à cisterna [em que fica armazenada]. Tenho um fogão solar, no qual faço minha comida e a dos meus cachorros. Uso restos de alimento para produzir gás e adubo para minhas plantas. Aqui eu também tenho mais de 30 pés de diferentes frutas. Plantei espécies que produzem ao longo do ano para ter sempre frutas e verduras variadas e em estações distintas. Assim, eu, minha família e os animais que vivem aqui têm comida.

#pracegover: a garota Carol S. (à esquerda) usa blusa preta e está de perfil, encostada a uma parede. Ela conversa com Luciano (à direita). Ele usa camiseta amarela, colete preto e calça jeans. Crédito: arquivo pessoal.
#pracegover: a garota Carol olha para a frente e sorri. Ela usa blusa de frio preta com detalhes em branco. Crédito: arquivo pessoal.

Você tem alguma dica para quem quer ter uma vida mais sustentável?
Hoje as pessoas encontram muitas oportunidades de fazer isso. Nas cidades, tem a coleta seletiva  para separar papéis, vidros e metais. Dá para fazer sabão com óleo usado, pegar matéria orgânica e fazer compostagem… Com o conhecimento que o ser humano tem hoje, ele pode investir um pouco do seu tempo para ser parceiro da natureza. Todos saem ganhando.

#pracegover: fogão solar tem cor verde. No meio, um losango como o da bandeira do Brasil azul e um sol amarelo no meio. A bora é branca. Está apoiado sobre uma superfície de madeira marrom.  Crédito: Koji Hirano_GettyImages

Saiba mais sobre a Escola e Reciclagem no site: escoladereciclagem.com.br.

Esta matéria foi originalmente publicada na edição 133 do jornal Joca.

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Comentários (4)

  • Isadora?

    1 mês atrás

    Quando eu crescer, irei ter mais hábitos assim, de reciclar...

  • Isabela

    3 meses atrás

    Eu achei o estilo de vida dele muito interessante, a partir de hoje eu irei começar a levar um estilo de vida mais sustentavel.

  • Evellyn°

    1 ano atrás

    Mtt interessante esse modo de vida que Luciano seguiu. Achei sua entrevista no meu livro da escola e pesquisei. ksks

  • Cadu

    4 meses atrás

    eu tbm ksks

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