Aproveitar o alimento todo, da casca até o talo. Esse é o objetivo do Nóiz na Cozinha, iniciativa que, desde março de 2021, leva chefs até a comunidade Karatê, localizada na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro. Ali, os profissionais ensinam gastronomia sustentável às crianças.

Atualmente, a iniciativa é composta por 30 voluntários. Para participar de cada ação, quatro crianças são escolhidas em atividades educativas da organização não governamental (ONG) Nóiz Projeto Social, criada em 2018, que acontecem aos sábados na comunidade. Os critérios de seleção são pontualidade [chegar na hora combinada] e bom comportamento.

Nesta entrevista, a chef vegana Marilia Koury, fundadora do Nóiz na Cozinha, revela ao repórter mirim André S. C., 10 anos, de Campinas (SP), que os pratos que mais fizeram sucesso até agora foram o cupcake de casca de banana e o macarrão com molho de tomates colhidos na horta.

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A chef Marilia Koury chegou ao projeto pela vontade de ter um local para levar comida saudável e sem desperdício a mais pessoas. #pracegover: foto da chef Marilia Koury vestindo dólmã branca e lenço amarelo na cabeça. Ela segura uma caixa com legumes variados. Crédito de imagem: ARQUIVO PESSOAL

Qual foi a inspiração para começar o projeto?
Eu tenho um projeto de entrega de quentinhas veganas e nutritivas para a população em situação de rua. E tinha vontade de estabelecer um local aonde pudesse levar essa ideia da comida saudável com desperdício zero para mais pessoas. Conhecer o Nóiz Projeto Social e ser abraçada por eles me deu essa oportunidade.

Como você começou a cozinhar?
Não me lembro de uma época em que não cozinhei… Essa sempre foi uma das minhas maneiras preferidas de demonstrar amor! A alimentação e a culinária saudáveis sempre foram um hobby, que aos poucos foi virando minha principal atividade.

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#pracegover: André S. C. usa camiseta amarela e um avental preto, em que se lê “programado para cozinhar”. Ele segura um rolo de macarrão nas mãos. Foto: arquivo pessoal

Tem mais pessoas que trabalham com você na ONG?
A ONG atua em várias áreas, então somos um grupo grande de voluntários. Especificamente no Nóiz na Cozinha, eu trabalho com a graduanda em gastronomia Adriana Silva e a presença de alguns convidados, como o chef Filipe Catão. Além deles, disponho de uma parceria inestimável, o Wesley, um adolescente com TEA [sigla para transtorno do espectro autista] atendido pela ONG que virou nosso apoio fixo, em virtude da desenvoltura e do apreço pela cozinha.

O que quer dizer gastronomia sustentável?
É o processo de cozinhar que foca na origem dos ingredientes, como os alimentos são cultivados, os meios pelos quais chegam ao mercado e ao prato dos consumidores. O foco é escolher alimentos saudáveis não só ao corpo, como ao meio ambiente em toda a cadeia produtiva, além de aproveitá-los ao máximo, com o menor desperdício.

Qual a importância de reaproveitar alimentos?
Pensa assim: com a quantidade de alimentos viáveis (que são bons para consumo) que é descartada como lixo, conseguiríamos suprir todos os brasileiros em situação de insegurança alimentar.

Como vocês conseguem os alimentos para a ONG? Vocês têm parceria com produtores, lojas ou mercados?
Infelizmente, ainda não e seguimos buscando. Hoje, para cada ação, compramos os alimentos.

Qual prato você mais gostou de preparar com as crianças?E qual prato elas mais gostaram de preparar?
Do que eu mais gostei foi o cupcake de casca de banana. Elas ficaram
de boca aberta quando descobriram que a casca que ia para o lixo representava 30% do custo dessa banana. Ou seja, quando você paga 5 reais pelo quilo, 30% desse valor vai para o lixo, porque a casca da banana é responsável por 30% do peso da fruta. Agora, do que as crianças mais gostaram foi, sem dúvida, o macarrão. Foi uma diversão para todos, além de termos usado os tomatinhos da horta da ONG para fazer o molho.

Como você inventa as receitas?
Sempre pensando em ingredientes de fácil acesso, na pegada do desperdício zero, saudáveis e que tenham um sabor que agradará as crianças. Hoje, elas já pedem receitas, como da geleia de morango, e eu vou adaptando para a realidade do projeto. Assim, fizemos uma geleia de morango com chuchu que foi um sucesso!

O projeto começou no grupo de karatê? Você pratica? Eu pratico karatê shotokan desde os 4 anos.
[risos] Não, André. Karatê é o nome do local onde o projeto acontece e fica na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro. É a denominação de um dos vários territórios de lá. Mas, para matar sua curiosidade, eu nunca pratiquei karatê, mas treinei muay thai por alguns anos.

Glossário
Vegano: pessoa que exclui de sua vida (da alimentação e outros hábitos diários) qualquer produto que tenha origem animal, como carne, ovo, leite, roupas e calçados feitos de couro, seda, lã, entre outros itens.

Esta matéria foi originalmente publicada na edição 182 do jornal Joca.

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Comentários (3)

  • BECARESIA

    3 meses atrás

    Foi muito educativo adorei😍😊

  • Isabela Terashi

    3 meses atrás

    Adorei essa parte de Desperdício de Alimento foi bem criativa!!

  • Gustavo

    3 meses atrás

    Concordo

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