campanha brasil sem fome acre
Entrega de cestas básicas da campanha Brasil Sem Fome, em 2021, no Acre. #pracegover: Três mulheres sentadas seguram sacolas com as doações. Crédito de imagem: Facebook Ação de Cidadania

Quem tem fome, tem pressa

Histórias de quem recebe ou doa alimentos (e outros itens) durante a pandemia

doação alimentos
Ana Heloísa Martz (à direita) recebe cestas básicas do projeto Brasil Sem Fome e é voluntária da ação. #pracegover: Ana Heloísa Martz ao lado de mulher segura pacote com doações de alimentos. Foto: arquivo pessoal

“Sou divorciada e moro com a minha mãe, minhas sobrinhas, meus dois irmãos e meus dois filhos. No momento, não posso trabalhar todos os dias porque tenho que ficar perto da minha mãe, que está com problema de saúde. Ela é aposentada, e o dinheiro que ganha não dá para pagar muita coisa. Então, essas cestas básicas que eu recebo do projeto Brasil Sem Fome, da ONG [organização não governamental] Ação da Cidadania, nos ajudam muito. Se nós não recebêssemos essa doação e dependêssemos só do dinheiro que ganhamos, teríamos que fazer uma opção: pagar as contas ou comprar alimentos e remédios para a minha mãe. Não daria para pagar tudo. Eu agradeço muito a todos os que estão envolvidos no projeto. Só quem ganha as cestas sabe a alegria que é recebê-las. Quem tem fome não pode esperar, tem pressa. Sem comida, não podemos fazer nada. Agora, como estou desempregada, além de receber cestas básicas, eu ajudo o projeto a distribuir doações para outras pessoas. Na maior parte do tempo, fico atendendo o público na sede da ação na comunidade da Brasilândia [SP]. Eu ajudo a distribuir comida (marmitex ou cestas básicas), roupas e calçados, por exemplo, na comunidade, em aldeias indígenas… Aonde precisar levamos as doações.” Ana Heloísa Martz recebe cestas básicas do projeto Brasil Sem Fome e é voluntária da ação.

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João Pedro F., 13 anos, voluntário do ECyD. #pracegover: João Pedro mostra porta-malas do carro cheio de sacolas com doações. Foto: arquivo pessoal

Eu faço parte de um grupo de jovens chamado ECyD e, durante alguns meses, a gente arrecada comida, além de itens de higiene, roupas e cobertores. Então, em um sábado específico de cada mês, a gente vai para a rua e distribui para moradores de rua. Costumamos entregar os itens na Avenida dos Bandeirantes, na cidade de São Paulo. Na pandemia, durante as distribuições, estamos tomando todas as precauções contra o vírus. Os moradores de rua ficam bem felizes em ver a gente, em poder interagir conosco. Agradecem muito pelo nosso trabalho… Para mim, é uma experiência muito enriquecedora. Sei que estamos os ajudando. Para arrecadar as doações, cada família que participa do grupo pede que outras pessoas doem. Eu, por exemplo, peço para amigas da minha mãe, amigos de escola, vizinhos… As pessoas só podem doar itens, não dinheiro. Nós passamos uma lista do que precisamos, os doadores compram as coisas e entregam para a gente. Em abril, o grupo arrecadou 300 kits de alimentos e, em maio, 260 cobertores, além de muitas roupas.” João Pedro F., 13 anos, voluntário do ECyD.

Apoio aos que não têm onde morar
A jovem Emilly N., 11 anos, resolveu agir para ajudar a Casa de Apoio Cidade de Refúgio (espaço em Barueri, São Paulo, que recebe moradores de rua e oferece moradia, alimentos e itens de higiene) ao saber que o local enfrentava dificuldades financeiras causadas pela pandemia do novo coronavírus. Isso porque os moradores de lá, que antes confeccionavam e vendiam sacos de lixo, panos e sabão, decidiram parar as atividades para não correr perigo de ser contaminados e transmitir o vírus para o dono do lugar, que faz parte do grupo de risco da covid-19.

emily casa de apoio
#pracegover: foto da jovem Emilly N., 11 anos, que resolveu agir para ajudar a Casa de Apoio Cidade de Refúgio. Ela usa blusa colorida em tons de laranja e calça jeans. Foto: arquivo pessoal

“Conheço a casa de recuperação há dois anos. Eu e minha família costumamos levar cestas básicas e ajudamos a fazer pão para eles venderem lá. A gente faz o que pode. Quando ficamos sabendo que a casa estava com as contas de luz e água atrasadas, quisemos colaborar, e eu tive a ideia de fazer uma rifa para arrecadar dinheiro. Minha ideia é arrecadar mil reais. Eu mesma imprimi as cartelas da rifa, e minha mãe me deu dinheiro para comprá-las. Eu acho que a casa é um projeto muito legal porque eles oferecem moradia, itens de higiene e alimentação para quem mora na rua. Hoje tem umas 13 pessoas vivendo lá. Por isso, estou muito feliz por conseguir ajudar e quero continuar ajudando. Pretendo ser uma pessoa bastante influente para auxiliar quem precisa. Falo bastante sobre a casa de recuperação nas minhas redes sociais para as pessoas que me seguem poderem colaborar”, contou Emilly ao Joca.

Emília de Jesus, mãe da Emilly, explicou à nossa reportagem um pouco mais sobre a ação da filha e a importância da Casa de Apoio Cidade de Refúgio para quem busca ajuda. “Há alguns dias, a Emilly fez marmitas para distribuir para os moradores de rua e um deles disse que queria sair da rua. Então, ela e meu marido o levaram para a casa de recuperação. Ele chegou sem nada, e o dono já deu banho, comida e um quartinho. Também levamos mais dois moradores de rua, então nos sentimos responsáveis por eles e decidimos dar cestas básicas todo mês para alimentá-los. Muitas pessoas saem de lá com emprego e estruturadas para conseguir morar sozinhas. O trabalho de lá muito bom. Eles não cobram nada para receber quem chega da rua, o dono da casa tem um coração muito grande.”

Unidos para agasalhar
A pandemia afetou muitas famílias financeiramente, o que as impede de comprar, entre outros itens, roupas e cobertas para os períodos mais frios do ano, que estão se aproximando. Algumas organizações estão ajudando nisso. Confira exemplos em três capitais:

• Na cidade do Rio de Janeiro, a Corrente do Bem (instagram.com/correntedobemunspelosoutros) e o Projeto Voar (instagram.com/projetovoarcafedamanha) já estão aceitando doações. Para participar, peça a ajuda de um adulto e faça contato via redes sociais dos projetos.

• A Arquidiocese de Belo Horizonte, em Minas Gerais, está recolhendo toucas e agasalhos, além de qualquer tipo de doação que você quiser fazer. Veja em: arquidiocesebh.org.br/contato/fale-conosco

• Na capital paulista, começou a 13ª Campanha do Agasalho da Cruz Vermelha com a meta de ajudar cerca de 30 mil famílias. Por conta da pandemia, desta vez eles também vão recolher álcool em gel e sabonetes, além de cobertas e roupas. Saiba mais: cruzvermelhasaopaulo.abraceumacausa.com.br

E quando a casa também precisa de ajuda?
A iniciativa Caçamba Solidária coleta materiais usados em obras (como cimento e tijolo) e mobiliário para comunidades em situação de vulnerabilidade, em parceria com outros projetos sociais. “Recebemos dois tipos de doações”, explica Tiago Coelho, que trabalha no Caçamba. “Existe a doação direta de itens com vida útil, e também fazemos um bazar nas nossas redes sociais, com o preço até 40% do valor de mercado. O valor arrecadado vai para pagar o frete das doações, mãos de obra, instalação etc. Nós cuidamos da instalação dos objetos doados e sempre chamamos profissionais locais para isso”, contou ele ao Joca.

A saúde na covid-19

Além dos hospitais
Conheça iniciativas que colaboram com diversos tipos de materiais neces- sários durante a pandemia

• O grupo Mulheres do Brasil, do Distrito Federal, mobilizou empresários para doações de materiais necessários para a infraestrutura de vacinação contra a covid-19. Elas conseguiram tendas para criar postos de imunização e tablets (para ajudar na comunicação e organização), entre outros itens.

• O Hospital das Clínicas, da cidade de São Paulo, criou uma plataforma que recolhe doações para a compra de máscaras e outros equipamentos de proteção. Parte do dinheiro arrecadado será revertido para respiradores (necessários para o tratamento de alguns casos da doença) e financiamento de pesquisas de combate ao novo coronavírus.

• A higiene é essencial na luta contra a covid-19. Por isso, o Projeto Orinoco, criado pela organização Cáritas, está distribuindo kits de higiene para refugiados venezuelanos em situação de rua em Roraima. Os pacotes vêm com dois frascos de álcool em gel, com 500 ml cada, e cinco sabonetes antibacterianos.

Saiba mais sobre grupos e instituições citados na reportagem

Brasil Sem fome, da ONG Ação da Cidadania: brasilsemfome.org.br

Caçamba Solidária: instagram.com/cacambasolidaria

Casa de Apoio Cidade de Refúgio: facebook.com/casadeapoiocidadederefugio

ECyD: contato@ecyd.com.br ou Instagram @ecydmorumbi

Mulheres do Brasil: grupomulheresdobrasil.com.br

Projeto do Hospital das Clínicas: viralcure.org/c/hc

Projeto Orinoco: caritas.org.br/projeto/6

Esta matéria foi originalmente publicada na edição 172 do jornal Joca.

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