Aos 17 anos, o equatoriano Jose Egas saiu de seu país para estudar. Desde então, não parou de viajar e trabalhar com projetos de desenvolvimento e humanitários. “Eu sou sociólogo do desenvolvimento, e faz 15 anos que comecei a atuar com refugiados. Meu primeiro trabalho foi em Angola. De lá vim para o Brasil, em 2007, quando o país tinha muitos refugiados da Colômbia”, relembra. Ele também esteve em locais como Mianmar, Irã, Grécia e Suíça. Em 2018, voltou ao Brasil para ser o representante do ACNUR (Agência da ONU Para Refugiados) no país.

Em abril, o ACNUR e o Joca lançaram o projeto Mi Casa, Tu Casa • Minha Casa, Sua Casa, com diversas ações para venezuelanos que vivem em Roraima (saiba mais na edição 168). A seguir, confira um bate-papo entre Egas e os jovens Alma C., Beatriz de O. A. e João Pedro F., 13 anos. Eles conversam sobre refugiados e o projeto com os venezuelanos.

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#pracegover: Jose Egas usa camisa branca e paletó preto. Ele sorri. Foto: ACNUR

Poderia explicar um pouco mais sobre o ACNUR?
O ACNUR foi criado, em 1951, para a proteção das populações que saem de seu país em virtude de perseguições por diferentes motivos em busca de proteção internacional — os refugiados. Também trabalhamos com apátridas, pessoas que nenhum país reconhece como cidadãs; refugiados que, após o fim do conflito em seu país de origem, pretendem retornar; e indivíduos forçados a se deslocar internamente em seu país. Nós ajudamos em todos esses casos e damos apoio aos governos locais para que ofereçam proteção internacional a essas pessoas.

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#pracegover: Alma sorri e usa camiseta rosa. Foto: arquivo pessoal

O que é a interiorização de refugiados?
O engraçado dessa palavra é que ela não existe em português, inglês ou espanhol. Foi criada para um dos pilares da operação humanitária do Brasil. Em 2016, em razão da situação na Venezuela, nós começamos a receber muita gente do país vizinho. Em 2018, o então presidente do Brasil, Michel Temer, foi para Roraima e, com a Casa Civil, o Ministério da Defesa e outros 11 ministérios, estabeleceu uma resposta humanitária para quem chegava, a Operação Acolhida. É um modelo em que o governo, as Nações Unidas, a sociedade civil, empresas, igrejas, organizações sem fins lucrativos e universidades se juntaram para dar uma resposta em três áreas principais. A primeira é a documentação; a segunda é a assistência humanitária, que oferece abrigo, comida, saúde e oportunidade de educação aos mais vulneráveis; a terceira é a interiorização, em que os venezuelanos que querem sair de Roraima e ir para qualquer outro estado podem fazê-lo por um sistema em que o governo, o ACNUR e outras organizações facilitam o transporte de Boa Vista até o município de destino. A importância da interiorização é que o estado de Roraima é muito pobre. As possibilidades para uma pessoa que chega a Roraima de se integrar na sociedade são muito limitadas pela falta de emprego e oportunidades.

#pracegover: do lado de fora de um abrigo em Roraima, menina de 9 anos segura no colo irmã de um ano e um urso de pelúcia. Aio fundo, roupas penduradas em um varal. Foto: UNHCR/Santiago Escobar-Jaramillo

A Operação Acolhida é muito importante também para o Brasil.
Temos sempre que pensar que um refugiado não é uma pessoa que vem para um país para se beneficiar dele. O refugiado sai da casa dele buscando proteção. Esse indivíduo, normalmente, vem com a roupa do corpo e o documento que tem na mão. Quando chega ao Brasil ou a outro lugar, busca proteção, e também quer contribuir com o país. Quer trabalhar, alugar uma casa, comprar comida. É importante ter esses programas para que essa pessoa sempre seja um cidadão ativo no país e possa contribuir — e não somente receber do país.

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#pracegover: Beatriz usa blusa branca e está sentada em uma poltrona. Foto: arquivo pessoal

Qual é a rotina de uma criança em um abrigo?
Viver em um abrigo não é fácil para ninguém, especialmente porque não é uma casa permanente. O que nós tentamos fazer — com outras organizações — é estabelecer atividades e oportunidades para que as crianças possam retomar a vida normal. Os abrigos têm alimentação, espaços de lazer para jogar bola, ler ou descansar. Também tentamos que as crianças sejam matriculadas em escolas. Tem sido muito difícil porque, em decorrência da covid-19, muitas estão fechadas.

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#pracegover: João usa camiseta branca e sorri. Foto: arquivo pessoal

Isso mostra também a importância do projeto Mi Casa, Tu Casa.
Neste momento, em Pacaraima e Boa Vista, temos 13 abrigos, com capacidade para quase 6.600 pessoas, mas já temos 6.800 pessoas. Cerca de 30% ou 40% são crianças e, se juntarmos adolescentes, podemos falar em 47%. Agora, tendo a oportunidade apoiada pelo Joca e pela sociedade brasileira, esses jovens vão poder ler livros e voltar a imaginar, apesar da dura realidade que os rodeia.

Esta matéria foi originalmente publicada na edição 170 do jornal Joca.

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