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Refugiados ucranianos em abrigo dentro de escola na cidade de Przemyśl, na Polônia, em 14 de março. Na maioria, mulheres e crianças. / #pracegover: grupo de ucranianos em abrigo com colchões e cobertores dispostos no chão. Crédito de imagem: SEAN GALLUP_GETTY IMAGES

Respostas formuladas com base em entrevistas com Cesar Albuquerque, doutorando em história social pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador do Laboratório de Estudos da Ásia (LEA-USP), e Vicente Ferraro, cientista político e pesquisador do LEA-USP

A guerra pode se espalhar? Pode começar a Terceira Guerra Mundial? (5º ano B, Escola Municipal Jael da Silva Barradas, Boa Vista – RR; Ana Eduarda S., 9º ano A, Colégio Estadual do Campo Luiz de Jesus Correia, Ipiranga – PR)

As chances são pequenas. Embora a maior parte da comunidade internacional esteja condenando a posição russa, nenhum país propôs apoio militar direto a Kiev, capital da Ucrânia. Uma guerra contra a Rússia deve ser evitada por causa do grande poder bélico (soldados e armamentos) do país. Além disso, se um país-membro da Otan (saiba mais na edição 181) for atacado, todos os outros integrantes têm que defendê-lo — isso inclui nações com armas nucleares. Tanto a Rússia como os países da Otan não querem esse conflito.

Por que a Ucrânia quer entrar para a Otan? (5º ano B, Escola Municipal Jael da Silva Barradas, Boa Vista – RR)

A Otan é uma aliança que reúne as principais potências militares do ocidente. Pelas regras da organização, qualquer agressão a um dos membros que a compõem deve ser respondida — inclusive militarmente — por todos os demais integrantes. Assim, ao fazer parte da Otan, a Ucrânia (um país militarmente fraco) entende que estaria mais segura, uma vez que um agressor externo, especialmente a Rússia, dificilmente invadiria o país, sob o risco de entrar em guerra com todos os membros da aliança.

Por que a Rússia não deixa a Ucrânia entrar para a Otan? (5º ano B, Escola Municipal Jael da Silva Barradas, Boa Vista – RR)

Rússia e Otan se enxergam com desconfiança, quase como inimigos. Os Estados Unidos criaram a Otan, em 1949, para proteger seus aliados da Rússia, que antes se chamava União Soviética. Se a Ucrânia, país vizinho à Rússia, fizer parte da Otan, em uma eventual guerra, a Rússia pode ficar em uma posição militar desfavorável para reagir. Ou seja, o governo russo vê a ampliação da Otan, com mais países-membros perto de seu território, como um risco à própria segurança.

O que a guerra entre Rússia e Ucrânia mudará nas relações entre os países? (Julia L., 1º A., Colégio Estadual do Campo Luiz de Jesus Correia, Ipiranga – PR)

Ainda é cedo para saber, mas já é possível identificar uma piora na imagem da Rússia entre boa parte dos cidadãos ucranianos, reforçando a ideia de que a independência do país depende de uma aproximação com o ocidente. As feridas que os conflitos deixam na população não são esquecidas facilmente, e as relações entre as nações podem levar muitos anos para se recompor.

Existe chance de o Brasil entrar na guerra? (Ester S., 5ª F, Escola Municipal Professor Amilton Suga Gallego, Embu das Artes – SP)

Dificilmente. O Brasil é um país muito distante do conflito e, historicamente, a diplomacia brasileira sempre defendeu a solução de desavenças entre nações de maneira pacífica, contestando políticas agressivas por parte das grandes potências. Foram poucos os conflitos em que o Brasil atuou de forma direta.

O que as pessoas comuns de um país em ataque devem fazer nessa situação? Fugir? (Alunos do 7º D, Colégio Ciman, Brasília – DF)

Muitos decidem fugir, mas não é tão simples. Por exemplo, vários aeroportos do país estão fechados e diversas estradas e ferrovias, bloqueadas. Além disso, é preciso ter dinheiro para comprar passagem (se a pessoa não tiver carro), comida etc. Daí a importância dos corredores humanitários para dar segurança à saída da população. As pessoas que não conseguem fugir acabam se protegendo em porões, abrigos antiaéreos e estações de metrô profundas. Também há aqueles que, por vontade ou obrigação (reservistas militares, por exemplo), não deixam o país e vão para a linha de frente do conflito, defendendo sua nação.

Onde as crianças refugiadas da Ucrânia estão? (Maria C., 5ª F, Escola Municipal Professor Amilton Suga Gallego, Embu das Artes – SP)

Muitas famílias ucranianas fugiram para outros países da Europa, como Polônia e Moldávia, ou para cidades ucranianas mais distantes das zonas de conflito. Estão morando em abrigos improvisados para refugiados, às vezes em condições não muito boas. No geral, somente mulheres e crianças podem sair do país, os homens são obrigados a ficar para ajudar o exército.

O que pode acontecer com a Ucrânia? (Pedro Henrique C. A., 9 anos, Santo André – SP)

Ainda não é possível saber. Ainda não está clara qual é a real intenção do presidente da Rússia. Pode ser que ele apenas queira que o presidente da Ucrânia aceite as exigências feitas: prometer, principalmente, que não buscará fazer parte da Otan. Por outro lado, pode ser que o líder russo queira tirar o atual presidente ucraniano do poder, dominar o território por mais tempo e colocar um líder aliado no país.

Quando a guerra acabar, Vladimir Putin [presidente da Rússia] vai ser preso por cometer crimes de guerra? (Alunos do 6º E, Colégio Ciman, Brasília – DF)

Isso depende de como se dará a resolução do conflito. Infelizmente, muitos líderes globais que cometem crimes de guerra e outras atrocidades dentro e fora de seu país acabam impunes. Uma eventual prisão de Putin dependeria, por exemplo, da derrota das tropas russas ou de algum tipo de mobilização política dentro da Rússia que o retirasse do poder — dois cenários pouco prováveis neste momento.


Linha do tempo: Rússia e Ucrânia
A relação entre os povos desses países é antiga. No fim do século 9, eles formavam um estado medieval conhecido como Rus Kievana. Ao longo do tempo, foram se distanciando e surgiram os russos e ucranianos como conhecemos hoje. A seguir, confira alguns dos principais pontos dessa história nos últimos dois séculos.

1922: Surge a URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), uma das nações mais poderosas do mundo e da qual faziam parte, entre outras repúblicas, Rússia e Ucrânia.

1991: Com o fim da URSS, a Ucrânia se torna um país independente.

1997: Rússia e Ucrânia assinam o Tratado de Amizade, Cooperação e Parceria, ou Grande Tratado, em que os russos reconhecem as fronteiras oficiais com o país vizinho — incluindo a península da Crimeia, região então ucraniana em que a maioria da população é a favor da Rússia.

2013: A Ucrânia traça um acordo político e comercial com a União Europeia (UE) no fim do ano. No entanto, o então presidente, Viktor Yanukovych, cancela as negociações e resolve se manter mais próximo da Rússia. A decisão leva a população a protestar em Kiev, capital ucraniana.

Fevereiro de 2014: As manifestações seguem ocorrendo e mortes são registradas. O presidente Yanukovych foge para a Rússia.

Março de 2014: A Rússia anexa a Crimeia ao seu território. Duas regiões ucranianas na fronteira russa se declaram autônomas (ou seja, rompem com o governo da Ucrânia): a República Popular de Donetsk e a República Popular de Luhansk. Acontecem conflitos na região, chamada de Donbass.

2014 e 2015: Rússia e Ucrânia, com mediação de Alemanha e França, assinam os Acordos de Minsk para um cessar-fogo (quando, durante um conflito, fica acertado que não haverá mais ataques).

2019: Volodymyr Zelensky é eleito presidente da Ucrânia. O discurso do político é favorável a uma aproximação do país com a UE e a Otan.

2021: No fim do ano, os russos dizem estar preocupados com a própria segurança por causa da possibilidade de a Ucrânia se juntar à Otan. Com esse argumento, movimentam cerca de 100 mil soldados para a fronteira com o país vizinho. Em dezembro, o governo russo apresenta uma série de exigências para amenizar a tensão, entre elas, de que a Ucrânia se comprometa a não entrar para a Otan.

24 de fevereiro de 2022: Depois de a tensão aumentar ainda mais ao Vladimir Putin, presidente russo, reconhecer as repúblicas de Donetsk e Luhansk como independentes, a Rússia ataca e invade a Ucrânia, dando início à guerra.

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#pracegover: mapa da Ucrânia que demonstra a divisão de áreas controladas e reivindicadas em março de 2022. Arte: jornal Joca

Raio X da Rússia
Área: 17.130.000 km2 (maior país do mundo).
População: cerca de 144 milhões de habitantes (pouco mais do que o México).
Fronteiras: com 14 países, entre eles, Ucrânia, Belarus, China e Finlândia.
Moeda: rublo russo.

Raio X da Ucrânia
Área: 603.548 km2 (pouco maior do que a de Minas Gerais).
População: cerca de 45 milhões de habitantes (parecida com a do estado de São Paulo).
Fronteiras: Belarus, Eslováquia, Hungria, Moldávia, Polônia, Romênia e Rússia.
Moeda: grívnia.

Fontes: artigo “Rússia e Ucrânia, uma crise e uma história” (por Claudio Umpierre Carlan, no site da Unifal- MG), BBC, CNN, DW, Estadão, Folha de S.Paulo, Nexo e The New York Times.


Como a guerra impacta o Brasil?
O conflito gera consequências para a economia do mundo todo, inclusive para a do Brasil. Em comunicado divulgado no dia 1º de março, David Malpass, presidente do Banco Mundial (instituição que realiza empréstimos para nações em desenvolvimento), afirmou que a situação financeira no planeta seguirá piorando caso a guerra continue. “Os preços das commodities [produtos que funcionam como matéria-prima, como petróleo] estão ficando mais altos, e isso pode aumentar ainda mais a inflação, que atinge com mais força as pessoas pobres”, disse. “As sanções anunciadas contra a Rússia também terão impactos à economia [mundial].”

A seguir, confira algumas das consequências que o Brasil pode enfrentar.

Agronegócio
O Brasil adquiria grande quantidade de fertilizantes e adubos dos russos — essas substâncias melhoram a produção das plantações. Com as sanções impostas à Rússia, ficará mais difícil comprar do país. Quando se torna mais complicado adquirir um item, a tendência é de que ele encareça. Com isso, os agricultores brasileiros gastarão mais para comprar fertilizantes e adubos e, assim, não conseguirão fazer investimentos para melhorar a produção das lavouras. Tudo isso os levará a vender menos, o que afeta a economia do país — quanto menos os produtores brasileiros vendem, menor é o crescimento econômico nacional.

Petróleo

A Rússia é um dos maiores produtores de petróleo do mundo. Com a guerra, nações como EUA e Reino Unido passaram a restringir a compra do produto dos russos — e terão que adquirir petróleo de outros países. A existência de um vendedor a menos faz o preço do petróleo subir. Isso impacta diretamente na vida da população, já que os preços da gasolina e do diesel, usados para abastecer veículos, ficam mais caros.

No Brasil, em 10 de março, a Petrobras (empresa brasileira de petróleo, gás natural e derivados) anunciou que o preço da gasolina e de outros derivados, como diesel e gás de cozinha, ficariam mais altos por causa da guerra. A companhia afirmou que, em virtude dos altos custos do recurso no mercado internacional, foi necessário aumentar os preços do petróleo por aqui. Caso contrário, não haveria dinheiro suficiente para comprar de produtores internacionais e o país correria o risco de ficar desabastecido.  

Inflação
É o nome dado para o aumento nos preços dos produtos. Se o preço do petróleo aumenta, a tendência é de que a inflação mundial também suba, pois o petróleo   usado em veículos que transportam produtos que serão vendidos. Funciona assim: o combustível mais caro encarece o deslocamento dos produtos; para não sair no prejuízo, os responsáveis pelos itens aumentam os preços das mercadorias (alimentos, eletrônicos, entre outros). Atualmente, a inflação do Brasil já é considerada alta (em 2021, foi de 10,06%, a maior desde 2015). Dependendo de quais forem os impactos da guerra, a inflação pode subir mais, o que elevaria os gastos dos brasileiros nas compras do dia a dia.

Expectativas
Nos próximos dias, o Banco Central do Brasil e dois dos bancos centrais mais importantes do mundo — Banco Central Europeu e Federal Reserve (dos EUA) — terão reuniões para definir a taxa de juros (mecanismo que ajuda a controlar a inflação). Esta é a primeira vez que eles se reúnem desde o início da guerra, que deve ser levada em conta. O que for definido trará consequências à economia mundial. Acompanhe no portal do Joca.

Clique aqui ou na imagem abaixo para ver a versão da reportagem do Joca impresso:

Fontes: Banco Mundial, BBC, CNN, Exame, Petrobras e UOL.

Esta matéria foi originalmente publicada na edição 183 do jornal Joca.

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