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Uma parte da equipe de voluntários do Mi Casa, Tu Casa • Minha Casa, Sua Casa participou da montagem e da inauguração das duas primeiras bibliotecas do projeto em dois abrigos de Boa Vista, capital de Roraima. #pracegover: foto da biblioteca do projeto, decorada de forma colorida e com diversas estantes com livros. Foto: ACNUR_Camila

Desde abril milhares de jovens brasileiros estão unidos para participar do projeto Mi Casa, Tu Casa • Minha Casa, Sua Casa, uma ação do Joca em parceria com o ACNUR (Agência da ONU para Refugiados) e a organização Hands On Human Rights, especializada em Direitos Humanos. O objetivo é levar livros e cartas de apoio a crianças e adolescentes venezuelanos que vivem em Roraima. No fim de julho deste ano, um dos momentos mais esperados aconteceu: a inauguração das duas primeiras bibliotecas em abrigos do estado.

Em mobilização inédita no mundo em prol dos refugiados e migrantes, cerca de 40 mil estudantes de 80 escolas públicas e particulares de diversos estados do Brasil arrecadaram mais de 37 mil livros em português e espanhol, além de escreverem mais de 4.600 cartas para os jovens venezuelanos.

As duas primeiras bibliotecas foram inauguradas no dia 28 de julho em Boa Vista, capital de Roraima: uma no abrigo Rondon 1, com 4.300 livros, e outra no abrigo São Vicente 2, com 1.850 obras. Além disso, o material para inauguração, em breve, de uma terceira unidade em Pacaraima – cidade na fronteira com a Venezuela – foi enviado ao local.

Esses primeiros resultados do projeto Mi Casa, Tu Casa devem beneficiar quase 800 crianças e adolescentes venezuelanos de até 17 anos. Só nos abrigos coordenados pelo ACNUR em Boa Vista, os jovens nessa faixa etária correspondem a mais da metade do total de refugiados e migrantes: 51% no Rondon 1 e 56% no São Vicente 2.

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#pracegover: uma jovem lê um livro em frente à estante da biblioteca. Ela usa camiseta branca com detalhes em amarelo e máscara. Foto: ACNUR_Camila

“A participação de crianças e adolescentes do Brasil inteiro no Mi Casa, Tu Casa superou todas as expectativas. Isso mostra o potencial que os jovens têm de agir para transformar uma realidade”, diz Stéphanie Habrich, fundadora e diretora-executiva do Joca. “As cartas e os livros vão permitir que jovens venezuelanos refugiados aqui possam não apenas ter um pouco mais de alegria como dar continuidade a seus estudos por meio da leitura. Com o Mi Casa, Tu Casa, os jovens brasileiros puderam se perceber como cidadãos atuantes, capazes de fazer a diferença na sociedade. Isso muda um país.”

“O projeto Mi Casa, Tu Casa possui um valor especial, já que não promove somente o acesso à cultura, mas também auxilia na integração local e traz insumo para a imaginação e sonhos das crianças, jovens e adultos nos abrigos. Ouvir e ler histórias com personagens fantásticos são vivências importantes em nossas vidas, que se tornam ainda mais significativas durante o deslocamento forçado”, comentou Jose Egas, representante do ACNUR no Brasil, para o Joca.

As inaugurações
Durante o lançamento das duas primeiras bibliotecas, uma parte da equipe de voluntários do Mi Casa, Tu Casa teve a chance de conversar com jovens venezuelanos nos abrigos. Um grupo de três meninas entre 8 e 10 anos, por exemplo, contou que adora ler e contar histórias para se divertir. Uma delas disse também que quer aprender a ler em português, o que ainda é difícil para ela. Todas quiseram participar da troca de cartas com os brasileiros e levaram as mensagens para suas casas temporárias no abrigo, com o intuito de escrever as respostas depois.

Diversos outros jovens venezuelanos já elaboraram suas respostas, que estão em fase de envio para as escolas participantes do projeto.

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#pracegover: criança lendo cartas dispostas sobre a mesa. Foto: ACNUR_Camila

“Estamos muito empolgados com a ideia da biblioteca, nunca tínhamos pensado na possibilidade de ter um espaço assim. Vai ter muitos reflexos na comunidade. Neste ano de pandemia, os jovens ficaram em distanciamento social da comunidade externa, permanecendo quase que exclusivamente dentro do abrigo. Ter a biblioteca e outras atividades que estamos planejando, como um clube do livro, vai ser super positivo para as crianças, os adolescentes e para os adultos também”, disse Graziela César, coordenadora do Rondon I, pela Associação Voluntários para Serviço Internacional (AVSI Brasil), à reportagem do Joca.

Em depoimento à equipe do ACNUR na inauguração da biblioteca no abrigo Rondon 1, o adolescente venezuelano Carlos, 15 anos, contou ter recebido “uma carta de uma menina, Maria, que mora em São Paulo e gosta de jogar Minecraft. Eu gostei, porque também jogo. Ela falou que lá está frio. Então escrevi uma carta dizendo que aqui estava quente, e que eu também gostava dos mesmos jogos que ela”. Sobre a importância dessa troca, Juliana Oliveira, assistente de coordenação do abrigo São Vicente 2, pela organização humanitária Fraternidade Sem Fronteiras (FSF), acredita que, “pelas cartas, as crianças podem desabafar, transmitir o que sentem para o papel. Muitas vezes, elas não conseguem ser ouvidas aqui. Escrever as cartas é uma forma de compartilhar suas histórias e o que estão vivendo com outras pessoas. É uma esperança que nasce de compartilhar o que sentem.”

Edgard Raoul, conselheiro da Hands On Human Rights especializado em Direitos Humanos, também fala sobre esperança. “Além de fazer com que os jovens venezuelanos se sintam acolhidos no Brasil, o projeto Mi Casa, Tu Casa funciona como um poderoso antídoto contra a xenofobia [aversão a pessoas e coisas estrangeiras] no país. A integração de refugiados em uma sociedade depende muito do quanto essa sociedade está preparada para recebê-los, pois eles chegam com uma língua e uma cultura diferentes. Ao participar do Mi Casa, jovens de diversos estados e situações socioeconômicas se preparam para conviver e aceitar essas pessoas. Por isso, a importância deste projeto vai além da doação de livros. Ele é parte de um esforço mundial pela diversidade e coexistência.”

Linha do tempo do projeto

12 de abril: Lançamento do Mi Casa, Tu Casa • Minha Casa, Sua Casa para o público.

30 de junho: Data limite para envio de cartas e livros para o projeto.

• 14 de julho: Para construir as duas primeiras bibliotecas, quase 8 mil livros e cerca de 4.600 cartas ― ou 2 toneladas de material ― deixaram a cidade de São Paulo com destino a Boa Vista.

23 de julho: Envio para o centro de acolhimento Casa da Música, em Pacaraima, de mais de 2 mil livros. O local é coordenado pela Associação Internacional Canarinhos da Amazônia Embaixadores da Paz (AicAep)

28 de julho: Duas bibliotecas instaladas:
– No abrigo Rondon 1, em Boa Vista, com 4.300 livros. Em 2 de agosto, 1.002 pessoas viviam nele – a capacidade total é de 1.060.
– No abrigo São Vicente 2, em Boa Vista, com 1.850 livros. Em 2 de agosto, viviam nele 191 pessoas – a capacidade total é de 195.

Até 31 de agosto: O crowdfunding (“vaquinha” virtual) do projeto segue recebendo doações em dinheiro, pois o Mi Casa, Tu Casa ainda precisa de recursos para fazer outras dez bibliotecas em Roraima e enviar os livros restantes para lá. Saiba mais acessando o site: https://conteudo.jornaljoca.com.br/mi-casa

Relembre o que está acontecendo na Venezuela
O país passa por uma grave crise política, social, humanitária e econômica (faltam alimentos, remédios e itens de higiene), que tem levado seus cidadãos a buscar ajuda em outras nações. De acordo com o ACNUR, existem atualmente mais de 5,5 milhões de venezuelanos fora de seu país, entre refugiados e migrantes. O Brasil já reconheceu cerca de 59 mil pessoas como refugiadas, de diversos países, de acordo com dados do ACNUR junto ao Comitê Nacional para Refugiados (Conare). Dessas, 46 mil são venezuelanas.

Ainda segundo o ACNUR, cerca de 8.100 venezuelanos vivem em abrigos de Boa Vista e de Pacaraima, cidades de Roraima. Desse total, quase a metade (47%) é composta por jovens com idade entre 0 e 17 anos (dados de agosto de 2021).

Números do Mi Casa, Tu Casa • Minha Casa, Sua Casa
• participação de cerca de 40 mil estudantes de 80 escolas brasileiras
• mais de 4.600 cartas enviadas para os jovens venezuelanos
• mais de 37 mil livros doados (número que supera em sete vezes a meta inicial do projeto, de 5 mil livros).
• ao todo, foram arrecadadas 7 toneladas de material

Fonte: ACNUR.

A inesquecível experiência de ir a Roraima
Por Henrique Faustino

Chegamos a Roraima com o objetivo de instalar e decorar as bibliotecas, entregar cartas e entrevistar moradores dos abrigos. Como jornalista, me senti empolgado, podendo ouvir tantas histórias diferentes, além de estar ansioso e inquieto por saber que seriam relatos muito intensos.

Fiquei surpreso ao ver como até os adolescentes mais velhos ficavam entusiasmados com a chance de receber cartas, já que, a princípio, eu esperava que isso tocasse apenas as crianças. Como muitos me disseram em entrevistas, as cartas logo fizeram sucesso porque deram a esses jovens uma atividade nova e diferente, algo de que carecem muito. Foi amargo e comovente ver a surpresa genuína em seus rostos.

As bibliotecas tiveram recepção positiva de todos, independentemente da idade. Os pais ficaram entusiasmados com o fato de seus filhos poderem, agora, passar mais tempo lendo e aprender um pouco de português. As crianças ficaram animadas por ter histórias para desfrutar.

Ambas as missões pretendem contribuir com esses venezuelanos. Eles precisam de um apoio consistente e contínuo. Foi de partir o coração conversar com crianças que, depois de se divertirem muito conosco, perguntarem: “E quando vocês vão embora?”. Elas sabiam que não íamos ficar. Por isso mesmo, o Mi Casa, Tu Casa é tão importante e precisa continuar levando livros e atenção, entre outras coisas, a esses jovens, que. merecem apoio para se desenvolver e crescer.

Esta matéria foi originalmente publicada na edição 174 do jornal Joca.

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