Indigenas-Coronavirus
Foto: Alex Pazuello/Semcom

Atualmente, o Brasil possui cerca de 900 mil indígenas, que vivem de diversas formas e em várias regiões do país. De acordo com dados de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a maioria (57,7%) mora em terras indígenas em áreas rurais, enquanto uma parcela menor (36%) vive nas cidades, onde busca acesso à saúde, à educação e a trabalho. No interior ou nos centros urbanos, eles enfrentam dificuldades para manter distância do novo coronavírus, uma novidade não só para os povos tradicionais, como para toda a humanidade.

Segundo a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde, até 27 de abril foram confirmados 85 casos e 4 mortes entre indígenas na área rural. Na área urbana, foram três mortes. Entenda os impactos da covid-19 para os indígenas, suas possíveis soluções e descubra como os jovens estão lidando com a quarentena.

Dificuldades
• Não há hospitais nos territórios indígenas, apenas postos básicos de saúde, onde faltam profissionais, luvas e máscaras, além de remédios e testes de covid-19.

• Baixo acesso a produtos de higiene, como sabão e álcool em gel, e a alimentos — alguns territórios têm pouca terra para plantar, além de rios contaminados por atividades como mineração, impossibilitando a pesca, o que exige que os indígenas tenham que comprar comida.

• Falta dinheiro para os indígenas que dependem de trabalho, como a venda de artesanatos nas cidades, durante o isolamento social.

• A comunicação sobre o vírus nas línguas nativas é limitada, assim como acesso à internet e telefonia.

• Muitos indígenas vivem em grande número em uma mesma maloca (tipo de casa indígena), além de compartilhar utensílios, fatores que aumentam os riscos de transmissão.

• Saneamento básico: falta acesso à água potável ou tratamento de esgoto nas aldeias e em áreas precárias em que essa população costuma viver nas cidades.

• Grandes distâncias (que chegam a semanas de viagem de barco) de territórios indígenas até as cidades onde há leitos hospitalares.

• Há garimpeiros e madeireiros que entram ilegalmente nas terras indígenas (em busca de ouro e madeira) e podem levar a doença para os povos.

O que o governo federal está fazendo?
No dia 13 de abril, o governo anunciou o investimento de 4,71 bilhões de reais até junho em ações para os indígenas, incluindo:

• 323 mil cestas de alimentos e kits de higiene.

• Auxílio de 600 reais para famílias que recebem o Bolsa Família.

• Um milhão de máscaras e luvas para profissionais da saúde indígena.

• Cartilhas sobre a doença traduzidas nas 274 línguas indígenas.

• 6.300 testes rápidos contra o vírus para as aldeias.

• Suspensão de acesso a terras indígenas a pessoas de fora.

As medidas são suficientes?
Segundo Paulo Basta, pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), as medidas são importantes para evitar que o vírus se espalhe entre os indígenas. Mas é preciso garantir que os benefícios cheguem às aldeias de forma segura e higienizada, evitando que os povos tenham que buscar itens nas cidades. Além disso, de acordo com ele, é preciso que uma equipe médica fique nas aldeias durante o isolamento social e disponha dos equipamentos necessários para atender doentes. Em longo prazo, o especialista recomenda melhorias gerais na estrutura das aldeias, como a instalação de internet para acompanhar a saúde a distância, além de laboratórios para a realização de testes e implantação de saneamento básico.

Outro ponto importante está na fiscalização para manter garimpeiros e madeireiros longe das terras indígenas. “Não adianta as aldeias estarem de quarentena se os invasores continuam entrando de forma ilegal nos nossos territórios e trazendo doenças”, diz Ângela Kaxuyana, coordenadora da Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira).

O que os indígenas estão fazendo?
Organizações estão produzindo cartilhas, podcasts e vídeos nas línguas nativas e em português para alertar sobre os perigos e as medidas de proteção. Entre essas ações estão a campanha #fiquenaaldeia e “vaquinhas” na internet para a compra de cestas básicas e kits de higiene. Alguns líderes indígenas negociaram a saída de madeireiros e garimpeiros de suas terras, colocaram placas na entrada das aldeias e chegaram a bloquear estradas para evitar a circulação de pessoas de fora. As festividades que acontecem em abril — conhecido como mês indígena — foram adiadas para evitar aglomerações.

Histórico
Antes da chegada dos portugueses, 5 milhões de indígenas habitavam o território hoje chamado Brasil. Além de disputas por território, outro motivo levou ao desaparecimento de diversas etnias: as epidemias. Por aqui, não havia certos microrganismos, como determinados vírus e fungos, que foram trazidos pelos estrangeiros. A novidade pegou os indígenas de surpresa, já que o organismo deles não tinha imunidade, ou seja, defesas contra esses seres. Assim, sarampo, varíola, gripe, tuberculose e outras doenças provocaram milhões de mortes entre os povos tradicionais desde o ano 1500.

O que os jovens indígenas dizem?

“Minha família é indígena, da etnia Borari, e tem um sítio no meio da floresta. Somos em 12 pessoas morando em casas separadas no sítio. A gente está aqui o dia inteiro e planta muita coisa na roça para comer, como mamão, abacate e mandioca. Eu fico na rede jogando no celular do titio e vendo vídeos no Youtube, onde aprendi a fazer estátuas de massinha. Minha tia já fez máscara para todo mundo: até para o meu cachorro Bob!
Quando eu quero liberar minha cabeça das notícias do coronavírus, coloco uma música bem alta no fone de ouvido. Eu tenho vontade de abrir o portão e gritar para o coronavírus: ‘Sai daqui!’. Eu quero que essa doença acabe logo pra eu poder voltar a visitar meus amigos, ir na piscina e na praia com eles, jogar videogame e futebol… Minha tia prometeu que, quando a pandemia acabar, ela vai fazer uma lasanha bem gostosa para nós. Eu e minha irmã vamos apostar quem termina de comer primeiro!”
Renato B., 9 anos, mora em Alter do Chão, no Pará

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Renato B., 9 anos

“Eu sou da nação Baré, de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, mas estou com a mamãe, em Manaus – ela trabalhando e, eu, estudando. Todo ano volto para a minha aldeia, me sinto mais confortável lá porque tem muita natureza e é mais fresco – na cidade faz muito calor porque o homem branco destruiu as nossas árvores, que faz nosso vento.
Aqui em Manaus, tem pouca gente na rua e eu também estou ficando em casa. Parei de ir para escola e tenho aula online. Sinto muita falta dos meus amigos. Foi o homem branco que trouxe essa doença, ele só pensa em riqueza e destrói árvores, plantas, animais, rio… Espero que todo mundo fique bem e cuide mais da natureza.”
Adanna Maria S., 9 anos, mora em Manaus (AM)

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Adanna Maria S., 9 anos

Sou da aldeia Kamayurá, no Mato Grosso. Aos 5 anos, vim com a minha família para a cidade, em busca de tratamento para a minha irmã, que sofre de distrofia muscular. Mas todo ano volto para a aldeia. Agora, com o coronavírus, não estamos conseguindo falar muito com eles porque na aldeia não tem internet e os parentes não podem sair da aldeia nem deixar ninguém entrar para que o vírus não chegue até lá. Só conseguimos falar com meu tio quando ele foi comprar os mantimentos na cidade antes da quarentena. Ele disse que os parentes estavam se informando pela TV, se cuidando e cobrando dos enfermeiros da Casai (Casa de Saúde Indígena) porque nada tinha mudado na aldeia apesar das notícias de que o vírus estava se espalhando. Ficamos sabendo que a Funai (Fundação Nacional do Índio) agora está se mobilizando para levar coisas: cestas básicas, roupas e máscaras para lá.
Aqui na cidade, a gente só sai mesmo para o necessário, como ir no mercado e na farmácia, e, quando volta para casa, não toca em nada, vai direto banhar e colocar a roupa para lavar. Estamos apreensivos porque isso é muito novo para a gente e porque meus irmãos estão no grupo de risco. Por isso, estamos ficando bastante em casa. Eu não estou tendo aula, meu pai parou de trabalhar e minha irmã mais velha também. Eles recebem alguns benefícios sociais, como seguro-desemprego, mas não é suficiente para a nossa família de 8 pessoas. Tentamos conseguir o auxílio emergencial do governo, mas o pedido foi negado. Vamos tentar de novo. Até agora, só recebemos uma cesta básica da CAS (Centro de Assistência Social) como ajuda.
Vejo muita gente desrespeitando a quarentena por aqui: crianças brincando, adultos fazendo exercício e jovens jogando bola na quadra… Fico abalada porque isso pode afetar a saúde de muita gente. Espero que as coisas melhorem para que eu me forme no Ensino Médio e possa fazer fisioterapia e enfermagem, sou apaixonada por essas profissões!”
Caminairu K., 17 anos, mora em Gama, no Distrito Federal

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Caminairu K., 17 anos

Fontes: Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, Atual Amazonas, BBC, Brasil de Fato, Catraca Livre, El País, Estadão, Fiocruz, Folha de S.Paulo, IBGE, Instituto Socioambiental, Ministério da Saúde, Ministério Público Federal, Mongabay, National Geographic, O Globo, Pública – Agência de Jornalismo Investigativo, revista Galileu, Terra, Toda Hora e UOL.

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Comentários (18)

  • Maria - 9 anos

    4 meses atrás

    Só não gostei da parte que disse que pessoas estavam desrespeitando a quarentena, isso faz com que os índios se contaminem.

  • Maria - 9 anos

    4 meses atrás

    Legal, que os índios fiquem bem na pandemia. E a gente também

  • Maria Clara-9 anos

    4 meses atrás

    Muito legal, pena que são ruins até com os índios, que eu vi que um falou que solicitou o auxílio emergencial e o pedido foi negado.

  • Felipe

    4 meses atrás

    achei interessante a ideia. espero qu todo mundo fique bem nessa pandemia

  • mira

    4 meses atrás

    gostei muito da reportagem para nos esta dificio também

  • oi9ii

    4 meses atrás

    achei otimo

  • gabriel

    4 meses atrás

    gostei muito dessa historia espero que os indigens fique bem

  • gabriel

    4 meses atrás

    bem interesante gostei bastante

  • Amanda Schenk

    4 meses atrás

    Que legal

  • Amanda Schenk

    4 meses atrás

    Legal

  • BEN*

    4 meses atrás

    muito legal essa materia muito intereçante

  • Maria Clara - 7 anos

    4 meses atrás

    gostei do texto, mas a parte que mais me deixou brava foi a notícia das pessoas desrespeitando a quarentena

  • carol

    5 meses atrás

    que legal

  • Ernesto

    5 meses atrás

    Nossa a nossa vida parece tão difícil e a deles é pior

  • Lara

    5 meses atrás

    que legal!

  • Guimaraes

    5 meses atrás

    enteresante

  • giovanna

    5 meses atrás

    legal

  • Robin Hood

    5 meses atrás

    Adorei

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